O Palácio da Justiça situado na Avenida dos Combatentes da Grande Guerra em Viana do Castelo possui um impactante conjunto de vitrais alusivos à Justiça na vertente religiosa, representando essencialmente o confronto entre o Bem e o Mal e as consequências de cada um.
Um desses confrontos está bem patente no painel que contém em destaque as Tábuas da Lei. Nele contemplamos elementos bem definidos – que nos remetem para o Livro do Êxodo – como:
Nuvem – a representar a descida/a aproximação/o contacto de Deus “em pessoa” («O Senhor disse a Moisés: “Eis que Eu venho junto de ti numa nuvem densa”» [Ex 19, 9]; «Moisés aproximou-se da nuvem escura, onde Deus estava» [Ex 20, 21]).
Montanha – a representar o Monte Sinai («chegaram ao deserto do Sinai e montaram acampamento (…) em frente da montanha» [Ex 19, 1-2]; «O Senhor desceu sobre a montanha do Sinai, para o cimo da montanha. E o Senho chamou Moisés ao cimo da montanha e Moisés subiu» [Ex 19, 20]).
2 placas com numeração romana do 1 ao 10 – a representar os 10 Mandamentos da Lei de Deus gravados em duas pedras pela mão divina e entregues a Moisés («E depois o Senhor disse a Moisés: “(…) Eu dar-te-ei as tábuas de pedra e a instrução e os mandamentos que escrevi para os instruir” [Ex 24, 12]).
Feixe de luz – a representar a iluminação da Lei Divina oferecida por Deus («Deus é luz.» [1 Jo 1, 5); «A Tua palavra é lâmpada para os meus passos e luz para os meus caminhos» [Sl 119, 105]; «Ele vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz.» [1 Pd 2, 9]).
Mar com ondulação – na Bíblia um mar tumultuoso adquire em regra um significado negativo associado às forças do mal, às adversidades mundanas e à falta de fé («Gerou-se, então, um grande vendaval, e as ondas arremessavam-se contra o barco, de tal modo que o barco já se estava a encher de água. Ele estava na popa a dormir, com a cabeça sobre a almofada. Acordaram-no então, e disseram-lhe: “Mestre, não te importa que morramos?”. E Ele, levantando-se, repreendeu severamente o vento e disse ao mar: «Cala-te! Fica quieto». O vento amainou e fez-se grande bonança. Depois perguntou-lhes: «Porque estais assustados? Ainda não tendes fé?» [Mc 4, 37-40]; «Jesus foi ter com eles, caminhando sobre o mar. (…) Pedro respondeu-Lhe: “Senhor, se és Tu, manda-me ir ter contigo sobre as águas”. Ele disse: “Vem”. Pedro desceu, então, do barco e começou a caminhar sobre as águas, para ir ter com Jesus. Mas, ao sentir o vento forte, teve medo e, começando a afundar-se, gritou, dizendo: “Salva-me, Senhor!”. Jesus estendeu-lhe imediatamente a mão, agarrou-o e disse-lhe: “Homem de pouca fé, porque duvidaste?”» [Mt 14,25-31]).
E também contemplamos um elemento indefinido (e perturbador) que emerge do mar tumultuoso, o qual arriscamos apontar ser uma lanterna de navegação com espigões, com um subtil cabo, se atentarmos nos dois riscos verticais na base do painel que não são confundíveis com as restantes ondas do mar.
Seja como for, os relevos pontiaguados na imagem parecem ser pontas de lança introduzidos num objecto que tanto pode ter a função de protecção contra choques (pedras, por exemplo) ou funcionar como arma para despedaçar coisas ou perfurar corpos. Essas pontas, tanto sejam vistas numa perspectiva defensiva, como agressiva, remetem-nos para uma vontade de inquebrantabilidade de uma realidade humana ou espiritual que não se quer regular pela Lei Divina, desejando inclusivamente quebrar essa Lei. No fundo, simboliza a rejeição da Lei Divina e, em suma, o mal.
A enigmaticidade desse elemento poderá ser interpretada no sentido de a Lei Divina sofrer ataques de múltiplas formas, inclusivamente de formas (ainda) por nós desconhecidas…
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