Julgamento em Leiria: empresário nega integrar rede internacional que importou 6 toneladas de cocaína em contentores de fruta
In Observador, de 27-04-2026
Tio e sobrinho julgados em Leiria por tráfico agravado de mais de seis toneladas de cocaína. Arguido de 55 anos diz desconhecer droga importada via empresa de fachada da Batalha.
Um homem acusado de tráfico de droga, cocaína avaliada em mais de 200 milhões de euros, negou esta segunda-feira, no Tribunal Judicial de Leiria, pertencer a uma organização criminosa internacional.
“Não é verdade”, afirmou ao coletivo de juízes o arguido, de 55 anos, empresário, após ser confrontado pela juíza que preside ao julgamento com o despacho de acusação, segundo o qual aquele fazia parte de uma rede internacional de tráfico de estupefacientes.
Os arguidos, tio e sobrinho, estão acusados, em coautoria, de tráfico de droga agravado, mais de seis toneladas de cocaína.
Em causa estão ainda um crime de associação criminosa, três de falsificação de documento (suposta utilização de matrículas falsas em veículos para transportar a droga) e outros três de sequestro, alegadamente praticados pelo tio, empresário de 55 anos, atualmente em prisão preventiva.
Já o sobrinho, agricultor de 29 anos, responde também por associação criminosa e por dois crimes de falsificação de documento.
Uma empresa do concelho da Batalha (distrito de Leiria), de que este segundo arguido era sócio-gerente, mas que era gerida “de facto” pelo tio, será responsável pelo crime de tráfico de droga agravado em concurso real com um crime de falsificação de documento, de acordo com o Ministério Público (MP).
No despacho final do MP, secundado por um juiz de instrução criminal, lê-se que os dois arguidos integravam uma rede internacional de tráfico de estupefacientes responsável pela introdução no país (para depois disseminar por outros da Europa) de grandes quantidades de droga proveniente da América Central e do Sul.
“Os arguidos negociavam o transporte de contentores com fruta, carvão, arroz e farinha de soja”, onde eram dissimuladas “elevadas quantidades de cocaína”, a troco de proventos elevados, usando “como atividade de fachada” a importação/exportação da sociedade da Batalha.
O MP adiantou que dois funcionários da Autoridade Tributária (AT), um a trabalhar no porto de Sines e outro no de Setúbal, “a troco de elevadas quantias monetárias”, garantiam que os contentores com a droga dissimulada “eram desalfandegados em segurança” ou, em caso de fiscalização, informavam.
Segundo o MP, as importações feitas pela sociedade desde 2018 a 2024, “obtendo, de forma reiterada, ao longo dos anos, perdas económicas de milhares de euros, não visavam a obtenção de lucro com a venda da mercadoria lícita”, mas, antes, a importação de cocaína.
No julgamento iniciado esta segunda-feira, após dois adiamentos, porque o arguido, detido no Estabelecimento Prisional de Lisboa, não foi transportado ao tribunal, aquele assegurou que fazia mais a “parte logística” da empresa.
“As importações passavam todas por mim, à exceção de alguns casos”, declarou, assumindo que também era sua responsabilidade as encomendas, os pagamentos e os contactos.
Este arguido garantiu que não tinha contactos com a AT, nem conhecia os dois funcionários mencionados pelo MP, e afiançou que “até ser detido não sabia nada” relativamente à droga.
Confrontado com os casos em que foi importada droga em contentores que tinham como destino a empresa da Batalha, o homem respondeu, várias vezes, que desconhecia.
“Não sei nada disso”, repetiu o empresário, assegurando não ter dado instruções para colocarem cocaína nos contentores.
Já sobre as perdas económicas da empresa, notou que a contabilidade da empresa “não deu prejuízo” e à pergunta da juíza-presidente “isto é tudo mentira?”, o arguido respondeu: “É sim, senhora”.
O outro arguido declarou que “confiava 100%” no tio, que era quem “tratava das importações”, cabendo-lhe a si tratar dos pomares.
Rejeitando responsabilidades nos pagamentos, transferências, compras ou vendas, o jovem assumiu que, “em termos de gestão, não dominava, estava na parte agrícola”, mas “assinava o que lhe pediam”.
O julgamento prossegue no dia 04 de maio.
